Trabalhando com Vazamentos nos Microfones

Houve um tempo em que a música era uma mistura de sons. Era uma soma de todas as partes. As gravações registravam o espaço em que eram feitas as performances.

Eu acredito que muito da cola e uniformidade das gravações venham disso. Outro fator também que não posso me esquecer de mencionar nesse artigo é sobre os famosos crosstalk ou diafonia, que é uma característica muito comum em muitas mesas de som analógicas, onde acontecia uma interferência de um canal para outro. Era comum ouvir por exemplo um pequeno vazamento de uma guitarra nos canais dos vocais, e muita gente atribui esse “problema” uns dos fatores de as mixagens soarem mais uniformes e com “cola”, se você assistiu o filme Sound City com certeza está entendendo o que quero dizer.

Como a tecnologia evoluiu, nos tornamos mais inclinados a desmontar o som e re-montá-lo. Colocamos tudo sob um microscópio.
Claro, estamos sempre tentando progredir das limitações do passado, mas já ficamos com medo dos próprios elementos que eram originalmente convincentes sobre muitas gravações.

Os tempos estão mudando

As mudanças não trazem muitas novidades. Os tempos mudam, modismos mudam. Há diversão em mudar com o tempo.
Isso não significa que temos de jogar fora métodos do passado. Haverá sempre momentos em que essas técnicas empoeiradas são apropriadas.
Há muita conversa sobre qual pré-amplificador de microfone foi utilizado e que instrumentos usados em gravações de clássicos. Raramente o vazamento natural dos instrumentos na sala é discutido.

tempos modernos

Tempos Modernos

Existe uma crença moderna de que você deve isolar tudo. Uma “quarentena do áudio”, se você quiser chamar assim. Você deve ter o controle completo na mixagem. Nós chegamos em um ponto onde sequer podemos ter um vazamento por entre os microfones da bateria. E já vi diversas vezes colegas se deparando com mixagens de bateria acústica e não saber lidar com vazamentos, justamente por estarem habituados a trabalhar com baterias de instrumentos virtuais como Ezdrummer.

Agora, isso tem o seu lugar. Este método é tão válido quanto qualquer outro. Estou simplesmente propondo uma discussão onde podemos afirmar que o vazamento não é seu inimigo.
Aos meus ouvidos existe uma magia nos vazamentos. Um amplificador de guitarra que vaza para os microfones de bateria acrescenta uma ambiência que eu realmente gosto.

guitar amp

Você pode ter que praticar as parte antes gravar. Agora, isso não deve ser um problema se você tiver feito a sua pré-produção e você está trabalhando com grandes músicos. Isso significa que todo mundo esteja ensaiado. Obviamente, o nível de musicalidade vai ditar algumas de suas escolhas. Tenha total controle sobre sua produção antes de aperta o botão REC.

Quando as peças da bateria estão sendo tocadas, você vai ouvir menos vazamento do que entre uma nota e outra. Até certo ponto isto é reduzido e pode se tornar o “reverb” natural na guitarra.
Assim, enquanto as peças da bateria estão reproduzidas você não vai ouvir muito. Quando a bateria tiver alguma interrupção você vai receber esse ambiente real natural . Não é o mesmo que a adição de um room verb que você faria posteriormente, mas é uma opção que você tem. É ai que está a graça da coisa, você usar os vazamentos a favor da música.

Esse vazamento adiciona uma dimensão que não pode ser adicionado após o fato. Ouça ” My Guitar Gently Weeps”e você vai entender. A guitarra e o baixo vazando realmente fazem esse trabalho na trilha. Existe uma bela redondeza nessa música. A música soa enorme.

Este é o meu método preferido para gravar.

Equilibrado

Não é simplesmente uma questão de definir a banda para deixa-los vazando para tudo quanto é microfone. Você pode ter que mover amps para diferentes partes da sala para limitar a quantidade de vazamentos. Você pode ter que usar gobos e divisores. O ponto aqui não é para parar todo o vazamento, mas para ajustar e controlá-lo.
Esta é mais uma razão para passar o tempo de tratar a sua sala.

bass
O Contra Baixo

Uma coisa que me irrita é quando a gravação de todos os instrumentos estão em uma sala ao vivo, mas o baixo é DI . Na maioria das vezes isso tira toda vida, principalmente se ouvirmos nos fones de ouvido.
Coloque um amplificador na sala e a coisa fica emocionante. Isso definitivamente é algo do tipo, tentativa e erro. Você precisa colocar isso em prática.

A sua sala é um instrumento em si. Se você receber uma banda e equilibrar bem todos em uma sala, vai ser muito mais fácil para gravar. Afinal, grandes músicos vão sabem se mixar.

Quando bandas como The Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd gravaram, Tom Dowd definiu toda a gravação em uma sala da mesma forma de como eles se posicionavam no palco.

Ele estava consciente da importância da banda em tocar juntos e a coesão de todo o som.
Isso realmente não era uma idéia nova. É onde a gravação começou. Confira os registros de Otis Rush da década de 50. Há alguns excelentes exemplos de vazamento de guitarra lá.

fase

A Fase

Para ser realmente eficaz  nisso, você deve realmente entender sobre fase . Este ponto é onde a experiência como engenheiro é importante.
Você tem que tomar decisões sobre o que você deve aceitar de vazamento. Pensar bem nas posições dos microfones, vazamentos de pratos no microfone do vocal principal não é uma ideia muito boa.
Na verdade, apesar de eu gostar de vazamentos eu ainda prefiro isolar o microfone vocal. Ou seja, a menos que eu esteja gravando algo que é essencial para que o vocalista na sala ao vivo. Isso acontece de vez em quando e, nestes casos, eu costumo usar um microfone dinâmico sobre o vocalista.

Tentativa e Erro

Eu não recomendo a tentar aprender os fundamentos do vazamento em uma sessão importante. Obtenha alguns amigos para vir até seu estúdio. Compre-os algumas cervejas e deixe a galera tocar a vontade.
Desta forma, não há pressão. Se você estragar algo, nenhuma perda.

Limpando as Trilhas Antes da Mixagem: Strip Silence

20 Vídeos Tutoriais da Waves em Português!

Jorge Binário

Jorge é musico, compositor, artista, produtor musical, blogueiro, louco por áudio e tecnologia. Fundou o blog SomBinário em 2012 e desde então vem desenvolvendo serviços online direcionados ao ensino de ferramentas de manipulação de áudio, técnicas de mixagem, masterização e serviços de mixagem online para clientes de todo o globo terrestre, sem fronteiras.

Website: https://www.sombinario.com

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Godinho
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Godinho

Magnifico texto de um assunto que muito me interessa!! Adoraria ver um video com demonstrações práticas disso. Faço parte daqueles que aprenderam a mixar baterias de ezdrummer e tomaram uma surra de uma bateria gravada ao vivo 🙂

Jorge Araujo
Visitante
Jorge Araujo

É questão de costume, baixa umas multitracks pra você treinar: http://www.cambridge-mt.com/ms-mtk.htm
O lance é praticar @godinho:disqus
Mas já que deu a ideia, vou fazer um vídeo FREE sobre isso,
Em nossos treinamentos eu mixo bastante coisa com bateria acústica, mas você me deu uma ideia de um vídeo que pode ficar legal. Valeu!!!!